A Música na Sinfonia da Vida

Horácio Dias de Abreu

Construtor de Harmónios e do Bem Social

Construiu harmónios durante mais de sessenta anos e tratou da sua terra com o mesmo cuidado.

1 DE MARÇO DE 1897 — 25 DE FEVEREIRO DE 1988

Horácio Dias de Abreu a caminhar, de chapéu e fato escuro, ao lado de outro homem
Horácio Dias de Abreu, à direita.

Há casas onde a madeira guarda o perfume do tempo e a cera conserva a memória das mãos. Em Tentúgal, houve uma casa assim: uma oficina onde a madeira ganhava forma, o ar se fazia música e o silêncio aprendia a cantar.

Chamava-se Horácio Dias de Abreu. Mais de mil e trezentos harmoniuns saíram das suas mãos, levando consigo a alma de quem os construiu e a promessa de dar voz a igrejas, escolas e lares. Em cada fole, em cada palheta, em cada tecla, havia um pouco da sua arte — e muito de uma vida inteira.

Mas a sua obra não se ficou pela música. Das mesmas mãos que moldaram instrumentos nasceram também gestos de generosidade: uma festa, uma fonte, um rancho de crianças, uma casa aberta ao povo. Porque há vidas que não se medem apenas pelo que constroem, mas pelo que deixam a viver nos outros.

Esta é a história de um rapaz que aprendeu a dar ao pedal na igreja, de um homem que fez da sua oficina uma fábrica de sonhos e de um nome que o tempo não conseguiu apagar. É também a história de cartas guardadas numa gaveta, de memórias à espera de serem escutadas e de uma herança que merece voltar a ter voz.

Porque há homens que constroem instrumentos. E há aqueles que, sem saberem, constroem uma parte da alma de uma terra.

1335harmónios registados entre 1920 e 1981
1920abre a Fábrica Nacional de Harmoniuns Magnificus
1938inaugura-se a Casa do Povo de Tentúgal
88anos quando pousa as ferramentas, em 1985

Os primeiros anos

Uma casa de marceneiro

Há vidas que começam com o cheiro da madeira acabada de cortar e o som discreto das ferramentas numa oficina. A de Horácio Dias de Abreu começou em Tentúgal, a 1 de março de 1897, ao cair da tarde, quando os relógios marcavam seis horas. Filho de Bento Maria de Abreu, marceneiro, e de Maria Ermelinda Dias de Abreu, cresceu numa casa da Rua das Negratas onde a vida se repartia por onze filhos, entre o trabalho, os afetos e os sonhos possíveis. Dois irmãos partiram para o Brasil, à procura de outros horizontes. Horácio ficou. E foi ficando, também, na memória da terra.

Foi na escola primária que aprendeu as primeiras letras, mas seria noutros lugares que descobriria a linguagem que o acompanharia para sempre. Na Sociedade Instrução, Recreio e Beneficência Tentugalense, fundada em 1896 com a participação do pai, encontrou um mundo onde a cultura e a música abriam janelas para além do quotidiano. O tio, padre Dias, ajudou-o a descobrir o encanto do harmónio — talvez sem imaginar que, naquele jovem, começava já a despertar uma vocação.

Mas antes de dar voz à madeira, Horácio aprendeu a conhecê-la. Seguiu as pisadas do pai e trabalhou como marceneiro, entre tábuas, ferramentas e o saber paciente das mãos. Em 1917, a tropa chamou-o para longe da rotina que conhecia. Levava consigo a juventude, o ofício aprendido em casa e, ainda sem o saber, as sementes de uma obra que haveria de unir para sempre a madeira e a música.

Porque, por vezes, uma grande história começa assim: numa casa modesta, entre as mãos de um pai e a curiosidade de um filho, muito antes de a primeira nota encontrar o seu caminho.

Retrato de Bento Maria de Abreu, de barba
Bento Maria de Abreu, o pai.
Retrato de Maria Ermelinda Dias de Abreu
Maria Ermelinda Dias de Abreu, a mãe.
Retrato do tio, o padre Dias
O tio, o padre Dias, que lhe despertou o gosto pelo harmónio.
Retrato de Ermelinda Dias de Abreu, irmã de Horácio, sentada, com blusa escura de renda ao peito
A irmã Ermelinda Dias de Abreu.
Horácio Dias de Abreu sentado no alpendre de casa, ao lado da esposa e de um harmónio
Com a esposa, em casa, ao lado de um harmónio.

Casou a 14 de fevereiro de 1931 com Carmo Paiva. A 1 de janeiro de 1935 nasceu o filho único, Gilberto, que viria a trabalhar ao lado do pai.

A oficina

Um harmónio é feito de ar

Há instrumentos que parecem feitos de madeira, mas que, na verdade, são feitos de ar. Um ar que entra devagar pelos foles, atravessa as palhetas e, quase por milagre, se transforma em música. É nesse instante que a matéria ganha vida e o silêncio encontra uma voz.

O segredo estava nos pormenores, na escolha de cada material, na precisão de cada gesto. Pinho para os foles, mogno encerado para o móvel, pelica, papel de pano, celuloide e pequenos parafusos, cada peça no seu lugar, cada elemento com a sua função. Só as palhetas vinham de longe, da Alemanha. Tudo o resto nascia ali, em Tentúgal.

Numa oficina onde a madeira cheirava a trabalho e a paciência, Horácio Dias de Abreu juntava o saber das mãos à precisão das máquinas. Cortava, ajustava, montava e afinava. Peça a peça, dava forma a um instrumento capaz de levar a música muito para além das paredes onde era construído.

E assim, entre o pó da madeira e o rumor das ferramentas, uma oficina de Tentúgal tornou-se lugar de criação. Porque fazer um harmónio era mais do que juntar materiais: era aprender a dominar o ar, dar-lhe caminho e descobrir a voz escondida em cada pedaço de madeira.

No fim, bastava um sopro. E aquilo que nascera das mãos de um homem começava a viver nas mãos de todos os que o tocavam.

Horácio Dias de Abreu e o filho na oficina, rodeados de madeiras e máquinas
Na oficina, ao lado do filho Gilberto, onde construía e reparava harmónios e outros instrumentos.
Medalha da Grande Exposição Industrial Portuguesa, com uma figura feminina de pé
Medalha da Grande Exposição Industrial Portuguesa.
  1. Abre a Fábrica Nacional de Harmoniuns Magnificus. O nome passa a estar em todos os instrumentos.

  2. Leva os harmónios à Exposição Industrial Portuguesa, em Lisboa, e volta com a medalha de ouro.

  3. A oficina e a casa mudam-se para a Rua Conselheiro Ferreira Freire. Ficam ali até ao fim.

  4. A tabela de preços já lista os modelos A, B, C, D e E, e o Portátil.

  5. Frequenta um curso em Tomar, nas Fábricas Mendes Godinho. Nasce o órgão eléctrico Magnus, com um método para aprender a tocar.

  6. A firma passa a chamar-se Fábrica Nacional de Harmoniuns Manuais e Eléctricos Magnificus.

  7. A 7 de fevereiro constrói o seu harmónio n.º 1335, o último registado.

  8. Em novembro, aos 88 anos, pousa as ferramentas.

Horácio Dias de Abreu, de pé, junto de um piano numa fábrica, rodeado de homens
Nas Fábricas Mendes Godinho, em Tomar.

Os harmónios seguiam para igrejas, escolas e seminários. Era música para mãos de crianças e para vozes de coro.

Em 1961 pediu licença para pôr na fachada uma tabuleta com o nome da casa: Fábrica Nacional de Harmoniuns.

«Qualquer criança ou pessoa adulta pode aprender a tocar órgão sem saber uma nota de música…»Horácio Dias de Abreu

Era essa a ideia. Instrumentos mais acessíveis, e manuais para quem queria aprender sozinho. O órgão Magnus saía com o seu método impresso, com as mãos desenhadas sobre os botões e as teclas.

Folheto «Novidade! Orgão-Eléctrico Magnus», com o órgão sobre quatro pés finos e o texto sobre o método de ensino
Folheto de lançamento do órgão eléctrico Magnus.
Folheto «O processo como se deve tocar órgão Magnus», com desenhos das mãos sobre os botões e o teclado
Como se toca o órgão Magnus.
O general Ramalho Eanes cumprimenta Horácio Dias de Abreu no stand de uma feira industrial
O general Ramalho Eanes visita o stand da Casa Abreu e cumprimenta Horácio Dias de Abreu na Feira Industrial e Comercial de Coimbra (CIC).

O catálogo

Os Magnificus

Cada modelo tinha nome e voz. Wagner, Mozart e Bach chamam a música. Catedral, Silberman e o Modelo 600 prometem sala grande e órgão a sério. A ficha de cada um diz quantos jogos de palhetas tem, em que tom se afina, de que é feito o móvel e que vozes se podem chamar.

Essas vozes são os registos: a flauta, o clarinete, o trémolo, o voix-céleste. Aqui aparecem desenhados como os puxadores que se mexem com a mão.

Harmónio portátil Wagner, com a tampa levantada, sobre um suporte de pés finos

Wagner Portátil

O que dobra e vai a qualquer sala.

Palhetas
1 jogo, dó-dó
Teclado
4/8, transpositor
Registos
1, Forte
Móvel
encerado
Harmónio Mozart, de móvel liso e encerado, com pedais

Mozart

O de casa: uma só voz, bem encerada.

Palhetas
1 jogo, dó-dó
Teclado
4/8, transpositor
Registos
1, Forte
Móvel
encerado
Harmónio Catedral, do folheto Magnificus: móvel polido, botões de registo e pedal

Catedral

Dez registos e duas joelheiras para encher uma nave.

Palhetas
2 jogos, dó-dó
Teclado
5/8, transpositor
Registos
10, 2 joelheiras
Móvel
polido
  • Forte I
  • Basson 16
  • Bordon 8
  • Dolce
  • Expressão
  • Coupleur
  • Forte II
  • Trémolo
  • Clarinete
  • Flauta
Harmónio Silberman, de móvel escuro e polido, com botões de registo e dois pedais

Silberman

O mais rico: três jogos de palhetas e doze registos.

Palhetas
3 jogos, dó-dó
Teclado
5/8, transpositor
Registos
12, 2 joelheiras
Móvel
polido
  • Forte I
  • Basson
  • Bordon
  • Clairon
  • Dolce
  • Flauta
  • Expressão
  • Forte II
  • Trémolo
  • Haut-Bois
  • Clarinete
  • Voix-Céleste
Harmónio eléctrico Bach, sobre quatro pés finos

Bach Eléctrico

Liga-se à corrente, a 220 volts, e vem forrado a plástico.

Palhetas
1 jogo, dó-dó
Teclado
4/8
Registos
1, Forte
Móvel
forrado a material plástico
Gilberto Paiva Dias de Abreu a tocar o órgão eléctrico, sentado de perfil diante de uma cortina
O filho Gilberto a tocar o órgão eléctrico construído pelo pai.
Harmónio Novo Modelo 600, de móvel escuro com colunas, botões de registo, joelheiras e dois pedais

Novo Modelo 600

Três jogos de palhetas e um contrabaixo de som profundo.

Palhetas
3 jogos de 5 oitavas + 1 oitava de contrabaixo
Registos
14 orquestrais, 4 joelheiras
Válvulas
discos de alumínio
Extras
amplificador dinâmico, exaustor e «Grande Órgão»
Preço
22.000$00

Quantos de cada

Entre 1950 e 1981 ficaram registados 242 harmónios. O que mais saiu da oficina foi o portátil.

Mapa de Portugal com pontos nos concelhos onde há harmónios Magnificus
Locais para onde vendeu ou reparou instrumentos.

Os harmónios saíram de Tentúgal para muitos sítios. Há pontos neste mapa de Portugal, do continente às ilhas. E também houve instrumentos vendidos ou reparados em França, em Angola e em Moçambique.

Quem o conheceu

O que ficou dito

«Foi o tio padre que o encaminhou para a construção de harmónios… levou-lhe um e ele desmanchou-o e a partir desse fez e inventou os seus… Engenho humano e inteligência.»José Craveiro
«Naquele tempo era muito importante para o filho de uma pessoa ter uma arte, especializar-se num ofício.»José Craveiro
«Era normal vê-lo partir para assistir a peças de teatro…»José Craveiro

Não precisava de monumentos. Bastava-lhe que a terra tivesse água, festa e música.

O bem social

O que se faz por quem fica

Há pessoas que deixam a sua marca naquilo que constroem. Outras deixam-na, sobretudo, na vida daqueles que as rodeiam. Horácio Dias de Abreu fez as duas coisas. As suas mãos davam forma à madeira, mas o seu sentido de compromisso estendia-se muito para além das paredes da oficina. Quando o trabalho terminava, Tentúgal continuava à sua espera.

Era uma terra de gente simples, onde muitos não sabiam ler e onde as dificuldades faziam parte dos dias. Horácio conhecia bem essa realidade. O pai, Bento Maria de Abreu, já se dedicara à vida pública, como presidente da Junta de Paróquia e da direção da Misericórdia. Do exemplo que recebera, Horácio fez uma maneira de estar: servir sem alarde, participar sem esperar recompensa, cuidar daquilo que era de todos.

Preocupou-se com a água das fontes e com a limpeza das ruas. Ajudou a dar vida às festas de Nossa Senhora do Carmo, levou o teatro às crianças, fundou um rancho infantil e trouxe até à vila as revistas que chegavam da cidade. Participou na construção da Casa do Povo e presidiu à Misericórdia, mantendo sempre a mesma disponibilidade para quem precisava de ajuda, sem olhar à condição social de cada um.

Havia, porém, um fio invisível que ligava tudo isto ao seu trabalho de fabricante de instrumentos. Horácio acreditava que a música não devia ser privilégio de alguns. Por isso, com cada harmónio, vendia também um método de aprendizagem escrito em símbolos, pensado para quem não sabia ler música. Queria que qualquer pessoa, criança ou adulto, pudesse sentar-se diante de um teclado e descobrir, por si mesma, a alegria de tocar.

Era a mesma generosidade, expressa de formas diferentes: na oficina, construía instrumentos para dar voz à música; na vila, construía oportunidades para dar voz às pessoas. Porque o verdadeiro valor de uma vida não está apenas naquilo que as mãos conseguem criar, mas também naquilo que essas mãos fazem pelos outros.

  1. A 19 de julho inaugura-se a Casa do Povo, de que foi fundador e secretário. Nesse ano integra a comissão das festas de Nossa Senhora do Carmo e a procissão passa a percorrer as ruas da vila.

  2. A 5 de novembro é eleito Presidente da Junta de Freguesia. Cuida de fontes, de água e da recolha do lixo.

  3. A 7 de agosto ajuda a fundar o Grupo Cénico Juventude Radiosa. Foi também Presidente da Misericórdia.

  4. O Rancho Folclórico Infantil «Flores de Tentúgal», da Casa do Povo, vai a Lisboa dançar no 1.º Festival Nacional de Folclore Infantil, no Pavilhão dos Desportos.

Rancho folclórico infantil em grupo, com lenços e coletes
Rancho Folclórico Infantil «Flores de Tentúgal».
Folheto do Rancho Folclórico Infantil Flores de Tentúgal, Casa do Povo, 1965
Folheto do 1.º Festival Folclórico Infantil, Lisboa, 1965.
Crianças vestidas de época em palco, com público à frente
Atividades culturais da Casa do Povo.
Crianças a dançar em palco, com o público de costas
Atividades culturais da Casa do Povo.

O que Horácio deixou em Tentúgal não se conta apenas em datas ou feitos. Vive na água que voltou a correr nas fontes, na fé que acompanhou as procissões e na alegria das crianças que levaram o nome da sua terra até Lisboa, dançando ao som de um sonho que também era seu.

Durante anos foi o agente em Tentúgal da A.P.R., a Agência Portuguesa de Revistas. Em 1963 foi a Lisboa a convite da Crónica Feminina, com o filho.

Horácio Dias de Abreu e o filho a visitarem uma sala de ficheiros, com uma funcionária à esquerda
Horácio e o filho Gilberto, em Lisboa, 1963.
Horácio Dias de Abreu à porta do Hotel do Império, em Lisboa, com o filho e funcionários do hotel
Horácio Dias de Abreu em Lisboa, no Hotel do Império.

Papéis de família

O que a gaveta guardou

Cadernetas, programas, cartas e diplomas. São papéis pequenos, de letra miúda, e foram eles que guardaram o que a memória deixa fugir.

Folheto Tentúgal e a sua História
Folheto «Tentúgal e a sua História»: no fim, a fábrica de harmóniuns ao lado dos pastéis.
Caderneta militar aberta, com páginas manuscritas
Caderneta militar.
Diploma Platex das Fábricas Mendes Godinho, Tomar
Diploma do curso de aperfeiçoamento em Tomar.
Programa dos grandiosos festejos em honra de Nossa Senhora do Carmo, Tentúgal, 15, 16 e 17 de julho de 1938
Programa dos festejos de Nossa Senhora do Carmo, julho de 1938.
Carta manuscrita de fevereiro de 1938
Carta manuscrita de fevereiro de 1938, sobre a capela de São Brás.

2001 · Missa Magnificus

O som volta a casa

Vinte anos depois do último harmónio, o neto Pedro Janela pegou no som destes instrumentos, transformou-o electronicamente e escreveu uma missa para ele: a Missa Magnificus, para electroacústica e coro de vozes iguais ou mistas. O nome é o da fábrica do avô.

Teve o apoio do Ministério da Cultura e do IPAI. Estreou em Montemor-o-Velho, com o Coro Ad Libitum, dirigido pela maestrina Isilda do Amaral Margarida, e seguiu depois para outras salas.

  • Guarda · Festival João José Baldi
  • Figueira da Foz · C.A.E.
  • Oliveira de Azeméis
  • La Guardia · Tominho
Fotografia de família ao ar livre, adultos de pé e sentados, uma mulher com um bebé ao colo
A família mais próxima. Horácio está na fila de cima, com a esposa Carmo ao seu lado.

Depois de 1988

O que ficou

Há oficinas que o tempo encerra e há outras que continuam a trabalhar, mesmo depois de as mãos que lhes deram vida terem descansado. A de Horácio Dias de Abreu é uma dessas. Quando morreu, a 25 de fevereiro de 1988, deixou mais do que uma oficina e um nome: deixou um saber, uma paixão e uma história que a família soube manter viva.

O trabalho não parou. Primeiro, foi o filho, Gilberto, quem deu continuidade ao caminho traçado pelo pai. Depois, os netos, Nuno e Paulo Abreu, levaram esse legado mais longe, fazendo da Casa Abreu, em Tentúgal, uma referência nacional no comércio de instrumentos musicais. Mudaram os tempos, alargaram-se os horizontes, mas permaneceu a ligação à música — essa herança que atravessou gerações sem perder a sua essência.

Na antiga oficina, porém, o passado continua à espera de quem o queira escutar. Entre as paredes que conheceram o som das ferramentas e o movimento paciente das mãos, sobrevivem máquinas, moldes e memórias. Ali estão o primeiro harmónio construído por Horácio e um modelo portátil elétrico, testemunhos de uma inteligência prática que soube transformar a madeira, o ar e a engenhosidade em instrumentos capazes de dar voz ao mundo.

E a história não termina aí. Pedro Janela, filho mais velho de Gilberto e neto de Horácio, herdeiro artístico dessa mesma tradição, encontrou na música o seu próprio caminho. Pianista e compositor, criou bandas sonoras para cinema e televisão e levou a sua música a palcos em Portugal e no estrangeiro. Nos concertos ao vivo, faz-se acompanhar por um harmónio Wagner fabricado pelo avô. Um instrumento antigo que continua a respirar nas mãos de um músico do presente, unindo num mesmo som o gesto de quem o construiu e a sensibilidade de quem o toca.

É talvez nessa imagem que melhor se compreende a herança de Horácio: um instrumento feito há décadas, atravessando o tempo para voltar a soar. A madeira envelheceu, as máquinas silenciaram-se e muitas das vozes que conheceram a oficina já se calaram. Mas alguma coisa permanece, intacta, sempre que o fole se abre e o ar atravessa as palhetas.

Porque o verdadeiro legado não é aquilo que fica parado no tempo. É aquilo que continua a viver, a transformar-se e a encontrar novas mãos para lhe dar voz.

Etiqueta azul colada no interior do harmónio: Fábrica Nacional de Harmoniuns Magnificus, Horácio Dias de Abreu, Tentúgal-Coimbra, n.º 1280, 29 de dezembro de 1970
A etiqueta no interior do harmónio que Pedro Janela usa nos concertos: n.º 1280, de 29 de dezembro de 1970.

Ler a tese completa (PDF)

Joana Neto, A Música na Sinfonia da Vida. Horácio Dias de Abreu: Construtor de Harmónios e do Bem Social. Dissertação de Mestrado, Universidade do Porto, 2005.

Não lhe ergueram monumentos, mas ficou na memória de todos.